ecepción del artículo: 0/0/2024| Aceptación para publicación: 0/0/2024 Publicación:24/06/2024
Manifestação da desigualdade de gênero na trajetória esportiva de mulheres cisgênero: uma revisão de literatura
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Manifestation of gender inequality in the sporting trajectory of cisgender women: a literature review
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Kassia Santos Rodrigues Danniel Correia de Lima Santos
kassiasantosrod@hotmail.com dannielcls92@gmail.com
Izabela Martins de Sousa Ana Carolina Valeriote de Oliveira Coelho
martinsizabela920@gmail.com anacvaleriote@gmail.com
Alesandra Tozatto
Resumo
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I |
trodução: O espaço esportivo detém um locus político no qual as divisões presentes no mundo objetivo, as formas de dominação e as disputas simbólicas se materializam. Portanto, o presente trabalho objetiva expor formas pelas quais a desigualdade de gênero pode vir a se manifestar na trajetória esportiva de mulheres cisgênero. Método: Trata-se de um estudo qualitativo de caráter exploratório, realizado por intermédio de uma revisão integrativa de literatura. Resultado: Através da busca nas bases de dados Scielo (Scientific Eletronic Library Online) e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) utilizando-se as combinações “mulheres” + “esporte” e “esporte” + “gênero”, identificou-se 154 produções das quais 6 artigos foram eleitos para adentrar a discussão. Discussão: Conclui-se que as disparidades de gênero no contexto esportivo persistem como um desafio para mulheres cisgênero e são manifestadas por meio de: a) desvalorização da mídia aos esportes femininos, sensação de não pertencimento de mulheres em cargos de liderança; b) objetificação de atletas e a tendência a não valorização de suas habilidades; c) divergências salariais e barreiras no acesso às carreiras
esportivas, em especial, sob a ótica da interseccionalidade entre raça, gênero e classe social; e, por fim, d) permanência de visões estereotipadas de esportes como estritamente masculinos.
Palavras-chave: Desigualdade. Esporte. Gênero. Psicologia.
ABSTRACT
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I |
troduction: The sporting sphere is a political locus in which the divisions present in the objective world, forms of domination and symbolic disputes materialize. Therefore, this study aims to expose the ways in which gender inequality can manifest itself in the sporting career of cisgender women. Method: This is an exploratory qualitative study, carried out through an integrative literature review. Results: By searching the Scielo (Scientific Electronic Library Online) and BVS (Virtual Health Library) databases using the combinations "women" + "sport" and "sport" + "gender", 154 articles were identified, of which 6 were chosen for discussion. Discussion: It was concluded that gender disparities in the sporting context persist as a challenge for cisgender women and are manifested through: a) the media's devaluation of women's sports, the feeling that women do not belong in leadership positions; b) the objectification of athletes and the tendency not to value their abilities; c) wage differentials and barriers to accessing sports careers, especially from the perspective of the intersectionality between race, gender and social class; and finally, d) the permanence of stereotyped views of sports as strictly male.
Keywords: Gender. Inequality. Psychology. Sports.
INTRODUÇÃO
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P |
ara além de suas atribuições voltadas ao movimento corporal, recreação ou competição, o espaço esportivo detém um locus político no qual as divisões presentes no mundo objetivo, as formas de dominação e as disputas simbólicas se materializam (Marchi Júnior, 2017). Nesse sentido, enquadra-se como um terreno fértil para a reprodução das condições sociais produzidas pelos próprios indivíduos sendo, portanto, um fio condutor para a manifestação e perpetuação das desigualdades de gênero.
Garcia (2018), exterioriza que a conceitualização de gênero ultrapassa as interpretações meramente biológicas, anexando elementos culturais determinados pelo meio. Destarte, são estabelecidas normas e expectativas de perfomance no mundo objetivo tanto para o feminino quanto para o masculino a partir de uma perspectiva androcêntrica que visam preservar a soberania masculina, implicando - por conseguinte - na apropriação de alguns espaços por homens e no distanciamento das mulheres destes mesmos locais.
De acordo com Bourdieu (2002), às mulheres é designado o âmbito privado, como o cuidado do lar, enquanto os homens destinam-se a dominar o público, ocupando-se do mercado e das posições de prestígio. Consonantemente, integrou-se em espaços individuais e coletivos a imposição de lugares inferiores à mulher cis frente a presença e participação do homem, conferindo-as apenas zonas longínquas de atividades nobres, tal qual ao meio esportivo, território o qual reverbera concepções convergentes, com escopo no comportamento e corpo da mulher como ineficiente para prática esportiva (Garcia, 2018).
Nesse cenário, o corpo acaba por tornar-se um objeto para controle social através de hábitos que reproduzem a docilização do corpo feminino e a sujeição da modelação que o coloca somente a serviço de normas já instauradas no campo social (Bordo, 1997).
No âmbito dos esportes, apresenta-se o predomínio desta lógica pautada na dominação de características pressupostas ao masculino, isto é o desígnio aos corpos já estereotipados através da concepção da célebre masculinidade competitiva, apta e forte. Justificando-se a baixa adesão de mulheres cis aos esportes, dado que este espaço revigora os equívocos sexistas de valores retrógrados que compõem a barreira da participação feminina (Schuwartz, Figueiredo, Pereira, Christofoletti, & Dias, 2013).
Adicionalmente, a discussão de gênero trazida por Hooks (2019) adquire
interfaces quando expõe-se as relações de raça, conquanto na identificação de uma sociedade em que predomina-se a supremacia branca, o corpo da mulher negra apresenta-se subjugado e inerente à desvalorização, dada as algozes narrativas históricas que corroboram para a caracterização deste feminino como exotizado e comprometido apenas a papéis sociais de erotização, loucura ou exercendo o cuidado, não integrando-se este ao desporte e ao lazer.
Na contemporaneidade, a construção de discussões acerca das formas como as desigualdades de gênero se manifesta no mundo esportivo, corrobora para a reflexão sobre questões que não apenas afetam diretamente às atletas, mas reverberam significativamente na sociedade, moldando a percepção coletiva de igualdade, justiça e oportunidade.
Ao examinar as barreiras sistêmicas, os estereótipos arraigados e as disparidades nas oportunidades, almejamos não apenas compreender as complexas dinâmicas que moldam esse cenário, mas também promover discussões essenciais para a construção de um ambiente esportivo mais inclusivo e equitativo para todas as mulheres cisgênero.
Logo, no universo esportivo, a iniquidade de gênero é um tema de relevância
inegável,
e sua complexidade vai além do que pode ser percebido superficialmente.
Revela-se uma intrincada teia de desigualdades que afeta, de maneira
particular, as mulheres cisgênero, que enfrentam impasses como disparidades
salariais, limitados cargos de liderança e baixa visibilidade midiática (Silva,
Mourão, Goellner, & Gomes, 2020; Lourenço, Monteiro, Silva,
D’auria, & Santos, 2022).
Portanto, partindo da problemática “De quais formas a desigualdade de gênero se manifesta nas práticas esportivas?”, a presente revisão ocupa-se em expor as formas pelas quais as disparidades de gênero podem vir a manifestar-se no âmbito esportivo, mais especificamente, na trajetória de mulheres cisgênero.
METODOLOGIA
Trata-se de uma investigação de abordagem qualitativa e exploratória fundamentada em uma revisão integrativa de literatura. De acordo com Richardson (1999), a pesquisa qualitativa possibilita a análise da interação entre as variáveis e compreensão dos processos dinâmicos vivenciados por grupos sociais. Além disso, Gil (2002) evidencia que a revisão integrativa é realizada por intermédio do levantamento das contribuições de outras produções, permitindo comparações e o delineamento de
semelhanças entre as concepções de diferentes autores.
Para tanto, a busca das produções foi realizada através das plataformas BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) e SCIELO (Scientific Eletronic Library Online), utilizando-se as seguintes combinações de palavras-chave: “mulheres” + “esporte” e “esporte” + “gênero”. Os critérios de inclusão utilizados foram: a) artigos publicados em português; b) artigos publicados e indexados nos referidos bancos de dados nos últimos dez anos; c) artigos que contemplem as palavras-chaves no título e resumo; e d) artigos de todas as áreas temáticas. No que concerne aos critérios de exclusão, estes foram: a) artigos que se referem a formação de psicólogos do esporte; b) artigos que não correspondem às características demográficas no qual esta pesquisa conjuga-se; c) artigos que não se equiparam aos objetivos e problemas propostos; d) trabalhos que não oferecem gratuidade.
A partir da aplicação da combinação de palavras-chave nas bases de dados, identificou-se um total de 154 produções nas bases de dados. Nesse contexto, inicialmente procedeu-se à leitura minuciosa dos títulos e resumos, e, uma vez confirmada sua relevância para o objetivo deste estudo, deu-se a leitura completa dos achados.
Das 154 produções encontradas, 70 estudos estavam duplicados. Após a triagem e mediante a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, bem como a verificação de sua pertinência para a presente pesquisa, 126 artigos foram excluídos. Dos 28 estudos selecionados, somente 6 foram eleitos para integrar a revisão a partir da leitura integral das contribuições.
RESULTADOS
Os 6 artigos selecionados
para discussão foram obtidos da biblioteca virtual SciElo, sendo 5 publicações
nacionais e 1 portuguesa. As produções consistem em: 1 análise
quanti-qualitativa; 2 análises qualitativas; 1 análise de grupo focal; 1
pesquisa descritiva e inferencial; e 1 pesquisa exploratória.
Dos trabalhos de análise selecionados, o primeiro verifica o produto midiático do portal GE no ano de 2019 sobre a Copa do Mundo de Futebol Feminino e a Copa América de Futebol Masculino; o segundo revisa a literatura referente às questões de gênero no esporte e faz reflexões sobre a temática; o terceiro apresenta um estudo com 37 treinadoras portuguesas de diferentes modalidades esportivas, com idade entre 17 e 50 anos; um artigo
apresenta a análise de grupo focal realizada com oito estudantes universitários, divididos em dois grupos de igual número, sendo um composto de homens e outro de mulheres; outro artigo apresenta dados do Suplemento de Práticas de Esporte e Atividades Físicas da PNAD 2015, com informações obtidas de 71.143 indivíduos com idade mínima de 15 anos; O último artigo examina informações extraídas de 16 mulheres com faixa etária entre 24 e 51 anos.
Todos os trabalhos científicos selecionados contribuem para a compreensão dos modos como a desigualdade de gênero se manifesta na trajetória esportiva das mulheres cisgênero. Os artigos foram sintetizados e organizados no Quadro 1 após leitura e seleção das contribuições mais significativas.
Quadro 1.
Síntese dos artigos utilizados como aporte para a discussão
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ANO |
AUTORES |
TÍTULO |
OBJETIVO |
SÍNTESE DAS CONCLUSÕES |
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2022 |
Lourenço, Monteiro, Silva, D’auria, & Santos |
A cobertura jornalística das copas de 2019 no Globoesporte.com: indícios da midiatização do futebol de mulheres |
Analisar a cobertura jornalística do grupo Globo sobre as seleções brasileiras na Copa do Mundo de Futebol Feminino e na Copa América de Futebol Masculino, ambas as edições de 2019. |
Os resultados reforçam a ideia de que o processo de midiatização do futebol de mulheres se restringe à sua exposição como entretenimento e, portanto, isto não lhe agrega valor a ponto de ser apresentado como notícia no espaço jornalístico, tal qual ocorre com o esporte masculino.
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2020 |
Silva, Mourão, Goellner, & Gomes |
Estratégias de resistência e empoderamento de treinadoras portuguesas |
Analisar como a hegemonia dos homens na função de treinador é negociada e contestada por mulheres que ocupam esta posição. |
Os resultados indicam que a presença no cargo de treinadora não garante que a hegemonia seja contestada. O caráter de gênero atribuído à esta função promove situações discriminatórias que exigem das mulheres ações de empoderamento e atividade para que as estruturas que perpetuam a sub-representação sejam modificadas. |
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2020 |
Oliveira, Macedo, & Millen Neto |
Artes marciais mistas e a apresentação corporal de lutadoras no Instagram |
Explorar a interpretação de imagens de lutadoras de artes marciais mistas (MMA) postadas no Instagram. |
Evidencia-se a permanência de estereótipos sobre a participação da mulher no esporte, com o olhar tendencioso dos homens para a objetificação do corpo das atletas. Na pesquisa, as mulheres se mostram mais sensíveis às feminilidades plurais, enquanto a tendência de comparação entre atletas masculinos e femininos é observada em ambos os grupos. É constatado que a auto apresentação das lutadoras negocia com a inconformidade de uma feminilidade hegemônica no espaço do torneio UFC. |
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2021 |
Martins, Silva, & Vasquez |
As mulheres e o país do futebol: intersecções de gênero, classe e raça no brasil |
Analisar e descrever o perfil das mulheres que jogam futebol no Brasil e compará-lo ao de mulheres que praticam outras modalidades e ao dos homens. |
Ao comparar o que ocorre na prática de esportes por mulheres em geral, os resultados apontam que classe e raça impactam de forma oposta na adesão ao futebol. Assim, a maioria das mulheres que praticam futebol advém de classes sociais mais baixas e é negra, o que indica a necessidade de um olhar atravessado pelo feminismo enegrecido sobre as narrativas do futebol de mulheres no Brasil.
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2018 |
Garcia |
O gênero e as práticas esportivas das mulheres. Alguns pontos de discussão em psicologia social e do esporte
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O artigo possui como objetivo analisar as justificativas científicas e sociais usadas para dificultar o acesso das mulheres aos esportes por razão de gênero. |
Apesar do aumento da prática esportiva por parte das mulheres, os homens ainda estão em maior número e são mais valorizados. Constata-se que o impedimento das mulheres ao esporte e seus benefícios se configura como uma imposição de inferioridade em relação aos homens. Ainda que a consolidação dos estudos da condição feminina traga avanços na produção de conhecimento, o investimento em estudos e pesquisas sobre desigualdades de gênero no esporte pode ser ainda mais aprimorado. |
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2013 |
Schuwartz, Figueiredo, Pereira, Christofoletti, & Dias |
Preconceito e esportes de aventura: A (não) presença feminina |
Investigar a aceitação, por parte dos homens, bem como, possíveis atitudes e condutas preconceituosas, no que tange à presença feminina nos esportes de aventura, no olhar das atletas. |
Nota-se que muitos entraves ainda são presentes nos esportes femininos de aventura, dentre os quais pode-se destacar o preconceito de forma geral, inclusive sua expressão velada. As visões estereotipadas de esportes como estritamente masculinos e a desvalorização de capacidades e habilidades das mulheres aparecem como fatores preconceituosos que podem significar motivos de impedimento à prática esportiva.
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Fonte: os autores (2023)
DISCUSSÃO
A análise das produções selecionadas, conforme a organização delineada no Quadro 1, revelou um enfoque consistente nas formas pelas quais a desigualdade de gênero pode vir a se manifestar na trajetória esportiva de mulheres cisgênero. Dessa forma, os artigos visam discutir a desigualdade presente no contexto midiático, a
tendência
à objetificação e perpetuação de estereótipos, problematização dos espaços
destinados às mulheres cis no contexto esportivo e, por fim, os desafios
enfrentados em termos de ocupação de cargos de liderança e equidade salarial,
os quais convergem ao conceito de gênero e às expectativas sociais que são
atribuídas às mulheres cis.
A partir de uma análise histórica, Garcia (2018) destaca que a construção das percepções de gênero influenciou a imputação de determinadas características aos indivíduos, como a associação da agressividade, força, trabalho e liderança ao masculino e ao feminino as noções de submissão, delicadeza e dependência. Assim sendo, uma vez que a prática esportiva reproduz as relações socialmente estabelecidas, os aspectos supramencionados podem vir a articular-se às relações estabelecidas nos desportos, bem como seus reflexos na mídia, no lugar ocupado pelas mulheres no imaginário social e em sua posição nos esportes.
Na tentativa de comparar a narrativa jornalística de um dos maiores portais de notícias esportivas pertencente à Globo, Lourenço et al. (2022) identificaram uma discrepância na cobertura midiática entre os esportes que detinham os homens como protagonistas e aqueles praticados por mulheres. Mais especificamente, os esportes praticados pelo público feminino obtinham menos da metade da cobertura destinada às
atividades esportivas realizadas por homens, estando a justificativa ancorada à baixa atratividade que os esportes femininos têm junto ao público geral.
Nesse sentido, tem-se que o aparato midiático contribui para a desvalorização da prática de esporte por mulheres. Em adição, ao considerarem o marcador de raça, Martins, Silva e Vasquez (2021) destacam que a mídia desempenha um papel proeminente na manutenção de representações estigmatizadas e preconcebidas, reproduzindo adjetivos masculinizados às mulheres negras as quais são comumente denominadas por intermédio do termo “feras”, diferente das atletas brancas que são chamadas de “belas”. Em esportes considerados selvagens, as mulheres podem ter sua sexualidade posta em pauta ao invés de seu potencial.
Analogamente, ao abordarem os desafios intrinsecamente ligados à participação feminina nos esportes de combate, Oliveira, Macedo e Millen Neto (2020) destacam que a mídia apresenta a inclinação de retratar as mulheres a partir de uma ótica que coloca seus talentos desportivos em segundo plano e atribuem ênfase no potencial de atratividade das atletas, fenômeno que também pode ser observado na avaliação do papel da mídia na
trajetória de mulheres que atuam em esportes de aventura (Schwartz et al., 2013) e não observado no caso de homens esportistas.
Nesse cenário, a partir da condução de grupos focais e a realização de comparações entre a percepção de homens e mulheres acerca da imagem de lutadoras retiradas da plataforma social Instagram, nota-se a prevalência da sexualização por parte dos homens voluntários e a presença da ideia de que a atratividade pode ser atenuada se a lutadora for considerada padrão de excelência em sua modalidade esportiva, ou seja, nos casos em que a atleta não esteja suficientemente dentro dos padrões estéticos, ela deve – no imaginário dos voluntários – compensar com a habilidade (Oliveira et al., 2020).
No
que concerne à percepção do grupo focal composto por mulheres, Oliveira et al.
(2020) concluíram que apesar de não reproduzirem falas que objetificassem o
corpo das lutadoras, estas expuseram compreensões que reproduziam a lógica
heteronormativa. Exemplificando, as mulheres pontuaram que apesar de serem
lutadoras, as esportistas possuem família, esposos e filhos, o que permite com
que elas continuem na condição de “ser mulher”.
Ressalta-se que, apesar de não terem sido expostas imagens de mulheres negras, nenhum participante – tanto do público masculino quanto do feminino – questionou a falta evidenciando, assim, a imprescindibilidade do acréscimo de uma análise crítica
interseccional na avaliação das desigualdades (Oliveira et al., 2020).
Martins e demais colaboradores (2021) avaliam que as ramificações das categorizações de raça e classe levam as meninas negras, desde a mais tenra idade, a se inclinarem para modalidades esportivas mais acessíveis, evitando ou sendo impossibilitadas de experimentarem àquelas detentoras de custos mais altos. No contexto brasileiro, os autores evidenciam ainda que o esporte dotado de acessibilidade é o futebol e tem-se que a probabilidade de uma mulher negra se envolver nessa prática é 2,017 vezes maior que uma mulher branca.
No âmbito dos esportes de aventura, a investigação de viés exploratório de Schwartz et al. (2013) evidenciam que as desigualdades parecem ocorrer predominantemente de forma velada, uma vez que das 16 mulheres participantes, 9 afirmaram não perceber preconceito em suas práticas. A explicação para o resultado é respaldada pela presença de modalidades em que indivíduos do sexo feminino são consideradas cruciais para a execução da atividade, como por exemplo, a corrida de
orientação. No que tange às 7 participantes que relataram vivenciar situações de desigualdade, a origem dessa disparidade, quando comparada às trajetórias masculinas, está relacionada ao fato de que as atividades dos esportes de aventura ainda são socialmente percebidas como práticas estritamente ligadas aos homens.
Contudo, cabe ressaltar que tal percepção não pode ser limitada a esse tipo de prática, estando conectadas às descobertas identificadas em outros esportes abordados na presente seção, como futebol e luta (Lourenço et al., 2022; Oliveira et al., 2020), e que refletem também na ocupação de cargos de liderança dentro do esporte (Silva et al., 2020).
Ao enfocarmos a profissão de gestão de equipes, comumente denominada de treinador no cenário esportivo, nota-se a presença de obstáculos duplicados para indivíduos do sexo feminino. Silva et al. (2020) destacam que, em consequência da concepção de que mulheres são frágeis, submissas e passivas, os homens são vistos como ideais para ocuparem os cargos de liderança sendo também selecionados para os melhores salários uma vez que os times masculinos possuem mais patrocínios do que os femininos.
Apesar de pesquisarem com enfoque em profissionais portuguesas, Silva et al. (2020) representam impasses que as mulheres enfrentam em seu cotidiano nos desportos, inserindo o termo reprodução homóloga o qual interfere diretamente no processo de recrutamento de mulheres para os cargos de liderança de equipes.
Sob esse viés, o responsável pela seleção de treinador utiliza parâmetros e critérios
que,
por estarem vinculados aos valores patriarcais, acabam por estabelecer a
exclusão de mulheres de cargos mais altos no esporte. Ademais, apesar das
treinadoras relatarem não passarem por situações discriminatórias, suas falas
são dotadas de circunstâncias que foram ocasionadas por discriminações,
demonstrando que já que estão inseridas e docilizadas com a lógica desigual
desde a infância, acabam por terem suas percepções da realidade enfraquecidas
bem como as praticantes de esportes de aventura que compuseram a amostra de
Schwartz et al. (2013). Ressalta-se ainda que a presença majoritária de homens
em cargos de treinamento corrobora para a restrição das oportunidades de
progressão nas carreiras esportivas das mulheres, proporcionando a reafirmação
de estereótipos acerca da competência de liderança das mulheres.
Outrossim, Silva et al. (2020) denunciam que a baixa remuneração ofertada às mulheres treinadoras em comparação aos destinados aos técnicos homens retratam duas situações: ou essa treinadora recebe menos dada sua condição de mulher ou porque seu trabalho é realizado com uma equipe de mulheres. Em ambos os cenários, a profissional
se encontra em um ciclo de (não) poder capacitar-se por não ter remuneração suficiente para tal e, consequentemente, vir a treinar equipes maiores.
Em meio a um cenário que tenta, constantemente, incorporar as mulheres a um senso de não pertencimento, emergem as estratégias de permanência. Para Silva et al. (2020), estas caracterizam-se por serem formas que as mulheres utilizam para lidarem com os quadros de iniquidade pelos quais precisam passar ao optarem por seguirem suas escolhas. Exemplificando, a materialização do conceito de estratégia de permanência dar-se-á pelas ocasiões nas quais mulheres têm seu potencial posto à prova e, ao invés de se imporem - um homem teria carta branca para fazê-lo -, optam por calarem-se e, assim, manterem as posições arduamente já conquistadas.
Por fim, as produções utilizadas como aporte na presente seção evidenciam que as desigualdades enfrentadas pelas mulheres no contexto esportivo revelam um cenário complexo e multifacetado. Em síntese, as barreiras de gênero têm persistido e são intensificadas a depender da raça e classe, corroborando para a perpetuação de concepções limitantes que reduzem mulheres cis à fragilidade e delicadeza, resultando em sua objetificação na mídia e escassez em cargos de liderança (Lourenço et al., 2022; Martins et al., 2021; Oliveira et al., 2020), traços sintomáticos de uma sociedade que, apesar dos avanços, ainda carrega estereótipos e estigmas que influenciam na inserção de determinadas minorias em lugares que – em tese – não são destinados à elas (Garcia, 2018).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das contribuições da presente investigação, conclui-se que as disparidades de gênero no espaço esportivo persistem como um desafio significativo para as mulheres cis, sendo manifestadas por meio de: a) desvalorização da mídia aos esportes femininos, sensação de não pertencimento de mulheres cis em cargos de liderança; b) objetificação de atletas e a tendência a não valorização de suas habilidades; c) divergências salariais e barreiras no acesso às carreiras esportivas, em especial, sob a ótica da interseccionalidade entre raça, gênero e classe social; e, por fim, d) permanência de visões estereotipadas de esportes como estritamente masculinos. O reconhecimento dessas disparidades é crucial para criar um ambiente esportivo mais inclusivo e equitativo.
Por
tratar-se de uma revisão integrativa da literatura, a abrangência deste estudo
está intrinsecamente ligada à disponibilidade e qualidade das fontes
consultadas. Nesse
sentido, devido às particularidades regionais, sugere-se que sejam realizadas investigações de campo futuras que objetivem apresentar as manifestações da desigualdade de gênero no contexto esportivo do Noroeste Fluminense, a fim de subsidiar políticas sociais de inclusão e ampliar a participação feminina nos esportes.
REFERÊNCIAS
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Bourdieu, P. (2002). A dominação masculina. (2ª ed.). Bertrand.
Garcia, C. C. (2018). O gênero e as práticas esportivas das mulheres: alguns pontos de discussão em psicologia social e do esporte. Psicologia em Revista, 27(esp), 497-517. https://doi.org/10.23925/2594-3871.2018v27i3p497-517
Gil, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa. Atlas.
Hooks, B. (2019). Anseios: Raça, gênero e políticas culturais. Elefante.
Lourenço, O. B., Monteiro, V. A. do N., Silva, L. B., D’auria, B.B., & Santos, S. M. dos. (2022). A cobertura jornalística das copas de 2019 no Globoesporte.com: indícios da midiatização do futebol de mulheres. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 44 (1), 1-8. https://doi.org/10.1590/rbce.43.e011321
Martins, M. Z., Silva, K. R. S., & Vasquez, V. (2021). As mulheres e o país do futebol: intersecções de gênero, classe e raça no Brasil. Movimento, 27 (e27006), 1-18.
https://doi.org/10.22456/1982-8918.109328
Oliveira, J. P. S. de, Macedo, C. G., & Millen Neto, A. R. (2020). Artes marciais mistas e a apresentação corporal de lutadoras no Instagram. Journal of Physical Education, 31 (1), 1-11. https://doi.org/10.4025/jphyseduc.v31i1.3180
Richardson,
R. J. (1999). Pesquisa Social:
Métodos e Técnicas. Editora Atlas.
Schwartz, G. M., Figueiredo, J. P., Pereira, L. M., Christofoletti, D. A., & Dias, V. K. (2013). Preconceito e esportes de aventura: A (não) presença feminina. Motricidade, 9 (1), 57-68. https://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-107X2013000100007
Silva, P., Mourão, L., Goellner, S. V., & Gomes, P. B. (2020). Estratégias de resistência e empoderamento de treinadoras portuguesas. Journal of Physical Education, 31(1), 1-11. https://doi.org/10.4025/jphyseduc.v31i1.3109